O diagnóstico laboratorial da SARS-CoV 2

O diagnóstico laboratorial da SARS-CoV 2

SPPC - July 27, 2020

Autora:

  • Ana Loureiro  - Unidade Hospitalar de Faro - Centro Hospitalar Universitário do Algarve

 

Co-autores:

  • Luís Nogueira Martins - Centro de Medicina Laboratorial Germano de Sousa
  • Maria José Rego de Sousa - Centro de Medicina Laboratorial Germano de Sousa

O diagnóstico laboratorial da SARS-CoV 2

A Coronavirus Disease 2019 (COVID-19), doença provocada pelo novo beta-coronavírus Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2), foi detetada pela primeira vez em Wuhan, província de Hubei, China, em dezembro de 2019, multiplicando-se rapidamente por todo o mundo, tendo infetado mais de 9 milhões de pessoas 1 .

Comparativamente com outros beta-coronavírus (SARS-CoV-1 e MERS) que provocam um quadro infecioso semelhante, a infeção por SARS-CoV-2 parece ser mais contagiosa e com uma maior taxa de transmissibilidade entre humanos.

covid19

A infeção continua a propagar-se, e o vírus é uma verdadeira ameaça à saúde pública, especialmente pelos muitos casos de doentes assintomáticos infetados, pelo que a deteção precoce da infeção é extremamente importante 2.

Atualmente, o método de diagnóstico laboratorial recomendado para a confirmação da infeção é a pesquisa de RNA do vírus por Real Time Polymerase Chain Reaction (RT-PCR), a partir de uma amostra colhida por zaragatoa nasofaríngea 3.
O aparecimento dos testes serológicos para pesquisa de IgG, IgM e IgA, vem no seguimento de muitos dos suspeitos com clínica sugestiva de infeção por COVID-19 terem testado negativo pelo método de RT-PCR (dificuldades na colheita de amostra, carga viral baixa em contágio recente), mas também de ser um teste mais rápido, facilmente aplicável à população em geral e maior facilidade de automatização 4. Não obstante, os resultados destes testes devem ser interpretados conjuntamente com o resultado da RT-PCR e os fatores que condicionam o estado do doente, desde a presença ou ausência de sintomatologia; tipo de sintomatologia (leve, média ou grave); tempo de exposição ao vírus; idade; e presença ou não de comorbilidades, uma vez que ainda não há dados suficientes sobre o papel específico da imunidade humoral, celular e inata em pacientes infetados por COVID-19 5,6.

No gráfico seguinte, podemos ver a estimativa feita para os vários marcadores de infeção por COVID-19, e a janela de deteção para cada um. Os períodos variam consoante a idade e a presença ou não de sintomas.
Na maioria dos indivíduos, o RNA viral é detetável no primeiro dia após o início de sintomatologia, atingindo o pico no final da primeira semana, o que sugere que os indivíduos serão mais contagiosos nesta fase3,7. A seroconversão ocorre entre os 7 e os 20-25 dias após a infeção, a maioria ocorrendo entre os 7 e os 14 dias, coincidindo com o começo da descida da carga viral3. A altura em que ocorre a seroconversão é crucial para se saber qual o período em que se deve fazer recolha de amostra de soro para se testar a presença de anticorpos7.

Neste momento, a deteção de IgM e IgG por ELISA mostram uma especificidade > 95% para o diagnóstico de COVID-193. Estudos recentes mostram que anticorpos (Ac) anti-SARS-CoV-2 do tipo IgA demonstraram alta sensibilidade no início da infeção, podendo até ser detetáveis no primeiro dia após aparecimento de sintomatologia10.

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Foram identificados casos positivos de doença em doentes assintomáticos com RT-PCR negativa para SARS-CoV-2 8.

Não obstante, foram reportados casos de falsos positivos por reação cruzada com fator reumatoide e com outros coronavírus 9,10.

A deteção dos anticorpos acima descritos por método imunocromatográfico pode resultar em resultados falso negativos, levando a atitudes de falsa segurança 11.

Face ao exposto, a RT-PCR continua a ser o método indicado para o diagnóstico de infeção ativa por SARS-CoV-2. Análises serológicas para deteção de Ac anti-SARS-CoV-2 do tipo IgM e IgA são importantes na avaliação inicial e devem ser interpretadas em conjunto com o doseamento de Ac antiSARS-CoV-2 do tipo IgG. O doseamento de IgG terá uma importância adicional para fins epidemiológicos, nomeadamente na avaliação de eventual contacto prévio com o vírus.

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