OVALOCITOSE DO SUDOESTE ASIÁTICO SINTOMÁTICA EM PACIENTE GRÁVIDA – UM CASO CLÍNICO

Evento: X Congresso Nacional de Patologia Clínica

Poster Exposto: 12

Autor do trabalho: Rita Lima

Serviço de Patologia Clínica – Centro Hospitalar Barreiro Montijo

Co-autores do trabalho: Samuel Rodrigues

Palavras-chave: anemia hemolítica; defeitos da membrana eritrocitária

Introdução:

A ovalocitose do Sudeste Asiático (SAO) é um defeito hereditário autossómico dominante da banda 3 da membrana eritrocitária, causado por uma deleção de 27pb no gene SLC4A1, sendo relativamente frequente nos países do Pacífico/Índico. Este defeito da membrana apresenta uma morfologia eritrocitária característica: ovalócitos com sulco/depressão central e estomato-ovalócitos. A anemia hemolítica é comum em recém-nascidos e crianças, no entanto, adultos sintomáticos são muito incomuns. Mundialmente esta mutação é extremamente rara, com uma prevalência global de <1/1.000.000.

Caso clínico:

Relatamos o caso de uma portuguesa de 28 anos de idade, com família de origem moçambicana, no 3º trimestre da 2ª gravidez de termo, cujo estudo laboratorial revelou hemólise. Tinha história de anemia hemolítica crónica não-imune compensada desde a infância, raros episódios de crise hemolítica após infeção e gestações anteriores, 2 abortos espontâneos e colecistectomia aos 15 anos de idade devido a cálculos biliares sintomáticos. A história familiar revelou anemia crónica, icterícia escleral, cálculos biliares no lado materno e um filho de 7 anos com icterícia neonatal. Nenhum diagnóstico específico foi estabelecido, nem aconselhamento genético sugerido.

Os resultados laboratoriais mostraram: contagem de eritrócitos persistentemente baixa, hemoglobina <110g/L, MCH (35pg), MCHC (35,4g / dL) e RDW (19,1%); reticulocitose mantida; esfregaços mos- trando anisopoiquilocitose com policromasia acentuada, ovalócitos com sulcos, estomatócitos e eliptócitos; e sinais indiretos de hemó- lise crónica. Foram excluídas hemoglobinopatias. O ensaio da G6PD estava normal, mas a reticulocitose mantida tornou esse resultado não informativo. A eletroforese das proteínas da membrana foi também aparentemente normal. Assim, fez-se um painel NGS de 28 genes para anemias hemolíticas hereditárias. Foram identificadas duas variantes do gene SLC4A1 (banda3) em heterozigotia: c.1199_1225del (mutação SAO) e c.166A>G (polimorfismo de Memphis banda3). Inesperadamente, foi também identificada uma variante da G6PD Betica (p.Leu323Pro/p.Asn126Asp).

Discussão:

Estes resultados, quando encontrados em heterozigotia, deveriam associar-se a um fenótipo sem doença. Isto levou à necessidade de sugerir estudos genéticos familiares, mais testes funcionais e futura análise de segregação para melhor entender o fenótipo apresentado e sua relação com as anomalias genéticas identificadas. A mutação SAO é independentemente rara por si só e a presença de outros polimorfismos na mesma paciente sintomá- tica mais rara é. O estudo deste tipo de casos enriquece bastante a prática clínica, fornecendo aos clínicos dados importantes sobre genótipo/fenótipo que contribuem para uma melhor gestão de pa- cientes com doenças hereditárias raras.

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