SÍNDROME DE DEFICIÊNCIA DE CREATINA CEREBRAL: UTILIDADE CLÍNICA DOS DOSEAMENTOS POR LC-MS/MS

SÍNDROME DE DEFICIÊNCIA DE CREATINA CEREBRAL: UTILIDADE CLÍNICA DOS DOSEAMENTOS POR LC-MS/MS

Evento: SPPC 2021

Poster Número: 017

Autores e Afiliações:

Luís Roseta, Margarida Peixinho, Teresa Pina, Carolina Queiroz, Eulália Costa, Fernando Rodrigues

Serviço de Patologia Clínica, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

Introdução

Os Síndromes de Deficiência de Creatina Cerebral (SDCC) são constituídos por um grupo de defeitos congénitos do metabolismo da creatina (CRT): deficiências da arginina:glicina amidinotransferase (AGAT), da guanidinoacetato metiltransferase (GAMT) e a deficiência no transportador transmembranar da CRT (CTT1/SLC6A8). 

Todas as deficiências manifestam-se clinicamente por um espectro variado de perturbações do neurodesenvolvimento, devendo a suspeita de SDCC ser considerada em todos estes casos sem outra causa evidente. O diagnóstico passa pelo doseamento, sérico ou urinário, de ácido guanidinoacético (GAA) e CRT, e pelo estudo genético dos défices descritos. A instituição precoce de terapêutica permite evitar anomalias permanentes e reversão de sintomas devolvendo ao rastreio dos SDCC, por doseamento de GAA e CRT, um papel fundamental.

Objetivos e Metodologia

Avaliar a utilidade clínica da implementação do método de doseamento de GAA e CRT na urina por metodologia de Cromatografia Líquida e Espectroscopia de Massa (LC-MS/MS), numa análise retrospetiva de 3 anos, entre 01/2018 a 06/2021.

Resultados

Foram realizados doseamentos a 206 pacientes, 91,1% com idade inferior a 18 anos, 79% do género masculino e idade média de 5 anos e 11 meses. Nos adultos, a idade média foi de 42 anos e 9 meses. A maioria dos pacientes estava diagnosticada com atraso global de desenvolvimento psicomotor ou da linguagem (64,1%), associado ou não a perturbações do espectro do autismo (25,4%), epilepsia (14,2%) ou patologias metabólicas. Os doseamentos derivaram de Consultas de Desenvolvimento (24,78%), Autismo (24,78%), Neurologia (15,65%), Metabólicas (11,3%), Genética (5,65%) Epilepsia (4,35%), Psicologia (2,61%), entre outras (10,87%). Foram considerados os rácios GAA/CT e CRT/CT (CT=Creatinina).

Os doseamentos realizados registaram uma maioria de resultados sem alterações (80,4%) e 19,6% com alterações. Dos resultados com alterações, foi pedida uma 2ª amostra a 90% destes pacientes, cujos doseamentos não revelaram alteração. Verificou-se, ainda, que, dos pacientes com alterações nos doseamentos descritos, 4 apresentaram também alterações moleculares, evidenciando uma média de rácio CRT/CT 5774,25 µmol/mmol e de rácio GAA/CT 318,5 µmol/mmol, confirmando o diagnóstico molecular e clínico. Estes 4 pacientes encontravam-se com suplementação de CRT após diagnóstico de défice de GAMT. Doentes sem qualquer alteração molecular registada revelaram doseamentos dentro dos valores de referência.

Conclusões

Os resultados laboratoriais confirmaram o diagnóstico molecular e clínico dos 4 doentes com patologia molecular, mostrando a relevância do método no diagnóstico dos SDCC. Verificou-se, igualmente, em 3 pacientes sem alterações moleculares nos genes SLC6A8, AGAT ou GAMT, a corroboração laboratorial pelos doseamentos descritos, que se encontraram dentro dos valores de referência. 

Em conclusão, a necessidade de 2as amostras traduz a importância da fase pré-analítica nestes doseamentos e o método implementado revelou utilidade diagnóstica, permitindo o rastreio precoce dos SDCC em Serviço Clínico diferenciado.